Estudo sobre Doença de Chagas desenvolvido na UFPA é destaque em Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca

O Estado do Pará é responsável por 74% dos casos de Doença de Chagas aguda no Brasil, tendo como principal forma de contágio o protozoário presente nas fezes do barbeiro, que pode ser transmitido por meio do consumo de açaí, alimento indispensável para a maioria da população paraense. Uma pesquisa realizada no âmbito Faculdade de Medicina (Famed) da Universidade Federal do Pará (UFPA) em parceria com o Programa de Doença de Chagas do Complexo Hospitalar da UFPA/Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) teve como objetivo de mapear o perfil epidemiológico dos casos de Chagas no município de Breves, no arquipélago do Marajó. O estudo foi destaque no XVIII Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca, realizado no mês de agosto em Fortaleza (CE).

O trabalho foi derivado da monografia de conclusão de curso de Medicina pelos egressos Arthur Chagas Rodrigues e João Vinicius Pinheiro da Silva, sob orientação da médica cardiologista Dilma Souza, professora da Famed e coordenadora do Programa de Doença de Chagas do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB), vinculado ao Complexo Hospitalar da UFPA/Ebserh. O objetivo foi traçar o perfil dos casos de Chagas aguda no município de Breves, no período de 2007 a 2017, perfil clínico e epidemiológico. Foram identificadas a forma de contágio, os sintomas mais prevalecentes, a forma de diagnóstico e o tratamento realizado.

Sendo a Doença de Chagas uma das doenças de notificação compulsória ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAM), as informações para a pesquisa foram coletadas das fichas de notificação dos casos diagnosticados e informados ao sistema, com aval e auxílio da Secretaria de Saúde do município e do Hospital Municipal de Breves. No período de estudo foram diagnosticados 264 casos de Chagas aguda, sendo 40% dos casos entre 2007 e 2014 e 60% dos casos entre 2015 e 2017, o que identificou uma epidemia de Chagas no período de 2015 a 2017, com aumento de 4 vezes no número de casos anuais. O estudo concluiu que a maioria dos pacientes são adultos jovens, pardos e homens, e a transmissão oral por consumo de açaí contaminado foi predominante em 97% dos casos.

O médico João Vinicius Pinheiro, um dos autores do trabalho, relata a importância de conhecer os aspectos locais da doença, como a forma de contaminação, a qual está associada aos os hábitos da população amazônica. "Fica mais fácil de se desenvolverem políticas públicas que visem a prevenção da doença e conscientização da população sobre o perigo de contágio, sobre os agravos e sequelas que a enfermidade pode causar. Além disso, a pesquisa mostra a realidade local, pois na Amazônia há o predomínio da forma aguda da doença sendo que no restante do país há o predomínio da forma crônica", explica o médico, natural do município de Breves. "Como brevense o sentimento é de dever cumprido, afinal sou médico graças a esse município onde cresci. Retribuir, de alguma forma, para a prevenção de doenças tentando melhorar a saúde da minha cidade é uma satisfação", conclui.

Também autor da monografia, o médico Arthur Chagas comenta que não conhecia a realidade do município de Breves até iniciar os trabalhos em campo. "A experiência foi boa para mim, tanto pela questão acadêmica, como pessoalmente, pois eu viajei até lá e pude ver tudo de perto, fazia o acompanhamento dos prontuários, conhecia um pouco da realidade, visitei casas dos pacientes, e isso me ajudou tanto na minha formação como profissional quanto pessoal", afirma o médico, que pretende continuar pesquisando o tema em uma pós-graduação.

O trabalho dos alunos foi apresentado no XVIII Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca, que aconteceu nos dias 8 e 9 de agosto, em Fortaleca (CE), e foi escolhido como um dos três melhores temas livres orais na categoria "Clínica e cirurgia/Intervenção/Arritmia". Para a médica e professora Dilma Souza, orientadora do trabalho, a pesquisa realizada "faz despertar em outros alunos a motivação pelo ensino-aprendizagem, no sentido de buscar melhor qualificação". Segundo a professora, a sensação de ver um aluno da Faculdade de Medicina defender um trabalho da sua região em um congresso nacional demonstra o compromisso e a parceria da Famed com o Complexo Hospitalar da UFPA para o ensino qualificado, dando visibilidade nacional às ações realizadas pelas instituições. A pesquisa ganhará continuidade no âmbito do Programa de Doença de Chagas do Hospital Universitário, correlacionando outras variáveis relacionadas à enfermidade e suas implicações, principalmente as cardíacas.

Destacando a parceria entre a Famed e o Complexo Hospitalar Universitário, o Diretor da Faculdade de Medicina, Silvestre Savino Neto,  ressalta que os hospitais universitários, são os locais de atividades práticas dos alunos da Famed, nos quais os professores também estão inseridos, "o que possibilita o ensino, a extensão e a pesquisa na realização de trabalhos importantes para a Amazônia, que é uma região endêmica da chagas", completou o professor. Na opinião do Gerente de Ensino e Pesquisa do Complexo Hospitalar da UFPA/Ebserh, Pedro Piani, os HUs são cenários privilegiados para a pesquisa na alta complexidade em saúde, principalmente nos programas especializados, como é o caso do Programa de Doença de Chagas, no qual o HUJBB é referência. 

Texto: Paola Caracciolo – Ascom do Complexo Hospitalar da UFPA/Ebserh

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